sábado, 30 de agosto de 2014

DENGO




Vinha um cheiro de terra molhada
de suor de terra. Um cheiro de calor
quando afundei a cabeça no teu peito
rude, nas tuas mãos que procuravam
sem nenhum pudor.
Vinha um cheiro de teia de aranha
de pêlo, de coisa escondida, de entranha.
Um cheiro de cana que incendeia
de vento que espalha poeira
um cheiro de meia noite e meia.
De feira. De alface, de pêssego azedo
de quem desenhasse no musgo com o dedo
de lençol já muito usado
um cheiro confidente, cúmplice
de algum pecado.
Um cheiro acostumado com as estações de subúrbio,
com passeios a pé, com pilhas de livros,
com expectativa dos poros. O doce contato.
Um cheiro muito mais do que um cheiro de mato.
Um cheiro de louco, que obriga, que engana
um cheiro que emana do fundo de um poço
debaixo de um braço.
Um cheiro de carne, de cama, sacana,
de terra ardendo debaixo da grama.
Um cheiro acridoce de corpo melado
que rola, esparrama e aperta
a minha cabeça no meio de um peito
com cheiro engraçado.
BRUNA LOMBARDI
"No Ritmo Dessa Festa"

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